15.5.15

Carta sobre Emília

"Eu me perturbei demais para ocultar meu despeito; ignoro se Emília o percebeu. Durante uma semana tentei não vê-la. Isso não era vida. Quando voltou à casa achei que me dava a entender, embora sem falar, que existia o outro. Sem dúvida estava brincando, com a puerilidade e boa-fé próprias do seu caráter, de ser ele. Talvez minha situação pareça um pouco absurda e bastante ignóbil. Mas, não é absurdo todo amor? Será Fulaninha mesmo tão maravilhosa? E Fulaninho terá razões para morrer de amores por ela? E por que é mais nobre o amor retribuído que o desinteressado e sem esperanças? Talvez o senhor pense que sou o mais infeliz dos homens. Sei que sem Emília não o seria menos. O senhor dirá que tê-la como a tenho não é tê-la. Acaso há outra maneira de se ter alguém? Embora vivam juntos, os pais, os filhos, o homem e a mulher, não sabem que toda comunicação é ilusória e que, definitivamente, cada qual permanece isolado em seu mistério?"

[Bioy Casares]

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