4.5.15

canto de despedida nº 01

O primeiro a se desprender foi o solar dos olhos de Carlos, embora, aqui narrando, sinta ainda o peso exato da cabeça em meu colo; era uma manhã, a rede acalantava-me o corpo ébrio de sono, a luz diretamente na córnea fazia de sua iris meu caleidoscópio. Dada a misticismos baratos, me surpreende que não tenha entendido aquele olhar hermético, composto de miríades de estilhaços, como um sinal profético de que iria me ferrar. Depois do olhar, com maior dificuldade, foi aquele perfume adocicado entre os fios da nuca que debandou;0 mesmo que eu mova a cabeça, com a angulação costumeira, não é mais ali sua morada. Com o cheiro de Carlos também partiu seu toque, já não sinto o afago das palmas mornas em minha pele, não é seu acarinhar que redesenha meu sorriso segundos antes do semáforo dar permissão à travessia.

Ainda que na descrição cada detalhe incite um espasmo, é o tempo que cuida destes desapegos do corpo, a distância age naturalmente colocando um véu onírico na memória. É aqui, na ponta das afinidades, que o percurso torna-se mais trôpego. Pois, as semelhanças não são apenas o retrato do outro, de antemão, são pedaços nossos de carne. Assim, foi com teimosia que resisti deletar um-a-um os áudios trocados; desvincilhar da toada de nossas vozes parecia potencializar minha surdez perante o mundo - ah, o enamorar-se de fragmentos...essa cólera, esse patético - até que os sussurros não soaram além d'uma elegia torta, e num arrebatamento, num vômito sem gozo, apartei o canto (é certo que, ao fazer concha com as mãos nos ouvidos, não é o mar que ouço...).

Ontem avancei mais um passo em direção a porta, rasguei um envelope feito à mão que carregava pra cima e pra baixo na bolsa. Dentro havia uma última carta - mais uma, que sempre invento diálogo depois do que já foi dito no vazio. Carlos daria um risinho de canto, reconheceria o vício tautológico - também tinha um filme gravado, que penso, gostaríamos de ter partilhado - a imagem, a metalinguagem, o duplo... - mas essa construção, hoje, seria já Atlântida, e eu tenho precisado tanto de ar,  não mais sucumbir ao desejo de imersão.

Também tirei de minha lista dois daqueles fados - que numa última ironia, diziam-lhe adeus e matavam-me na inutilidade das palavras - que é preciso permitir novos acessos, por sal-grosso nestes rasgos, tirar a evasão por ele deixada. Há tanto mais a despedir, seja para dar um simulacro de paz ao ermo instaurado, seja para resignificar - eu que neguei tanto essa palavra - para num dia qualquer, ser possível o encontro sem bambeios, sem perder-me nestes feitiços sutis, traiçoeiros, de quem afirma ser vaqueiro sem corda, mas não esconde a sombra do enlaço. 

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