12.4.15

o dorso curvado: modos de existir

(desse jogo de espelhos turvos, onde me afundo na busca dessa imagem que nunca será reflexo)

Eu já trouxe este tema para exorcismo tantas vezes, não é, querido? Se lembra, querida? E de que adianta, não desterra o diabo, não sacraliza minha fala; meu corpo, inútil matéria, permanece imaculado,  não me toca o profano, não me alcanca. É isso que é o limbo, afinal, não é?  A repetição inconclusiva de suas fraquezas mais arraigadas; o algoz que te empurra, te repuxa, contradição que faz a paralisia tão potente e desapercebida. O purgatório é a inação enquanto movimento.

O outro é minha fraqueza mais profunda, é a parte apropriada como órgão vital que me é negado constantemente (tumor na gênese; depois, transplante, rejeição, circularidade d'um organismo fraco). O outro, essa imagem perfeita. O que resvala na falha sorvo antes que tome forma, faço meu o rosto para o erro. O outro, santifico, embalsamo, boto altar, madeira pura, me nomeio José,  aceito a coadjuvância de bom grado, sou o pai adotivo, sou o figurante ao lado do salvador, o que beija devoto o útero da virgem. O outro caído do paraíso,  serpente,  erotismo, corporalidade que se interpõe entre tudo que eu poderia ser, mas não sou,  não sou. O outro dualidade, extremos, eu no meio disso tudo sendo nada. Quem poderia supor o ermo como tamanho pungir? Ainda assim, não basta essa dor, olhar o outro e medir a insignificância soa no tom exato do egocentrismo; é preciso dar punição a si,  pelo que falta de ser, pelo tanto que se passa perscrutando a falta, é preciso encarar o outro, de frente, de perto, mais perto, tão perto que o bafo morno de nicotina lhe toste a penugem das narinas, tão perto que não poderá simular o horror que brilha fundo nas córneas (brilho opaco, poluição), tão perto quase o outro, quase, quase....

Nenhum comentário: