29.4.15

Modos de existir.

Como pássaros metálicos madrugassem esganiçando com o bico acoplado aos ouvidos, como fossem mecanismo inventado só para embrutecer, endoidecer o cidadão. Tudo era essa polifonia maldita, farfalhar de gralhas imiscuindo-se em minhas sinapses, impedindo o gozo e o vômito. Lembrou-me aquela ressaca violenta no fim da adolescência: dezoito anos, muito cigarro de cravo e amontoados de cerveja - houve uma dança em cima da mesa e um registro que se espera perdido na desmemória de algum aterro -  só que ontem - e antes, e antes - não havia festa, cada fibra rija era sobriedade, surdez e essa enxaqueca sonora, latejando, veia prestes a implodir, a vazar os limites pelas entranhas. 

Fosse possível desguiar o corpo e as subjetividades desse pungir, sei, ainda escolheria estar - dizendo não, numa voz trêmula, os olhos atordoados de desejo pela lâmina entremeando a pele, mas negando; que negar é fazer interdição, que é por platonismo, que é dar potência ao desejo. É com essa fome que anseio lugares de miséria, que invento um nomadismo a fim de perscrutar vilarejo há muito feito cinza, deposito a fé num destino de banho dos pós antepassados, faço rito e sacrifício onde a morte coroou-se senhora, infértil, filio-me ainda que em vida, encaro os olhos da fera, mimetizo-a, e de repente, eu sou: senhora, limbo, pássaro e este último grunhido preso às cortinas. 

Nenhum comentário: