12.3.15

: libélulas, dragões & labirintos :

Foi naquela noite, enquanto saíamos do teatro e falávamos meio-sérios meio-zombeteiros o texto potente isso, o ator e sua força aquilo que, num ímpeto de completa despretensão, deixei a mão passar rasteira pela calçada e alcançar a unha-de-vaca, sequinha, assemelhada a um pirócptero, aberta como asinhas de libélula [penso que toda vez quererei sorver as sílabas, uma-a-uma: modo de sentir as cócegas do nome-bicho percorrendo a língua].

Também foi ali, quando me dei conta do fruto em seu devir inseto, que a obsessão se instalou. Primeiro se mostrou com timidez, quando tentava negar a busca de pareidolias em fragmentos diários - da mancha poeirenta na janela ao chá respingado na toalha - mas, não tardou muito e o tema ocupou espaço central das narrativas com os amigos, enquanto, entre cervejas e bitucas, rascunhava o bichano em árvores mondrianas. 

Na solidão da casa passei a rodopiar por horas seus quase dezenove centímetros. Em meu imaginário o fruto seco tornara-se fóssil, representação de sua espécie mais antiga [trezentos milhões de anos, num sussurro]. Numa madrugada pensei tê-la perdido, foi quando, meio a um desespero descabido, através dos binóculos nunca usados, avistei-a no justo instante em que mimetizava a antena do telhado vizinho. Esguia e com as patinhas cerzindo o que parecia ser um cesto: morada última da presa a ser triturada. Também, ali, nossa despedida.

Ainda assim, foram dias me alimentando de sua presença alada. Seu espectro atingiu tamanha potência que certo dia, enquanto banhava-me preguiçosamente, pude ver, pelas gotículas que se fundiam ao excesso de ar quente, pequenos rastros de seu colorir neon. Sua lembrança vivida & refletida em mil partículas d'água. Naquela manhã bastou-me esse instante, e uma caneca de café, para ganhar as ruas, eu que ando tão mais acovardada.

Mas, é preciso dizer que, embora apaixonadamente hoje, não foram sempre assim os nossos encontros. Era com muito terror que se davam as férias: papai montava a piscina-de-mil-litros no quintal de casa, esperava com isso que eu criasse rugas e lhe deixasse em seu silêncio por algumas horas. A brincadeira seguia com alegria até o apercebimento duma presença outra. Eu conseguia identificar sua silenciosa majestade pela sombra no plástico azulado, o zumbido vinha apenas como confirmação dos pesadelos mais persecutórios. De repente, tudo resumia-se ao pavor de seu voo rasante nos cabelos bagunçados, tudo era um observar do fundo, como sereia sem canto, na espera de sua partida.

Não tenho coragem de encarar aquela menina e dizer que, agora, estes mesmos sinais são motivos de frisson. Que o fascínio percorre cada uma das cinquenta batidas por segundo, como se minhas fossem as asas. Que sinto em meus traços as trinta mil máscaras retidas em seu olhar, como se todas elas apontassem para um espelho, nunca visto antes, ao fundo da sala. Nele não reside mais a imagem do esqueleto humano, apenas o vulto do que fui encarando-me profundamente.  Segredos, segredai-nos: tu, um ser além do eu, atravessamentos vindos d'uma pré-história. 

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