13.3.15

[daquela imagem]



"Esses manequins se inclinam esta noite
Em munique, necrotério entre Roma e Paris,

Nus e carecas em seus casacos de pele,
Pirulitos de laranja com hastes de prata

Insuportáveis, sem cérebro.
A neve pinga seus pedaços na escuridão."
[Plath]


Do bocal do inferno emergimos. Não houve escolha, deu-se por um movimento de refluxo da engrenagem subterrânea. Fomos expelidos sem termos saído do jogo, por isso, a subjetividade permaneceu buscando linhas a interseccionar. Os corpos seguiram por costume- It's herd behavior - giramos ainda sonâmbulos a catraca , avançamos por uma pulsão de afronta que não era nossa. 

O último degrau do submundo é o primeiro do purgatório exterior. Compartilhamos um sorriso ao sentir o bucólico desprendendo-se da praça, tão familiar, até a sordidez dos pecados parecia-nos menos brutal. Nos enganamos, não é? Acreditávamos, irrefutavelmente, ser o limbo um preparativo à entrada dos céus, como quem assopra a bexiga pra festa, como quem nega os restos de vinho & bituca que se penetrarão no taco, como quem nega a paralisia, como quem.

Foi com açoite que nossos olhos, guiados pelo inconsciente à luz neon da sobreloja, receberam a verdade imagética; verdade em corpos plastificados, esquálidos, buscando uma majestade onde não há trono para rainhas. Os manequins pousando como epifania, incutindo organicamente seus argumentos - finalmente, meu amor, finalmente - 'os portais de deus não são nossos', ele brandiam na mudez cerâmica, 'os portais não são seus'.

A amargura do vômito bateu no esôfago e se expandiu pela ossatura, a ânsia como verdade, a ânsia como fluido que forma o âmago, a essência negada aos manequins e seus véus tortos, vestidos pomposos da festa cristã mais decaída, a celebração que não será para além da vitrine. Nossos rostos, aterrorizados, refletidos em seus olhares opacos, essa seria a última lembrança; não fosse a cruz da capela abençoando nosso desmoronamento.




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