10.2.15

do samba que rascunhei era a culpa rainha (ou um novo modo de desfilar cafonices)

começa assim, num apelo quase mercadológico, de quem escolhe o título para atrair o leitor e após a emboscada revela que na verdade a culpa, mais que rainha, é o todo, o próprio samba, que não é samba, mas um chorinho denso que se esparrama na lentidão de conta gotas. aqui poderia dar-se findo, apenas uma frase, um para-choque de caminhão para te fisgar até um longo silêncio compartilhado que esmoreceria todo ímpeto, mas, estes ermos hoje não me somam, não como noutros num canto do poeta.

o incômodo, para além da própria brevidade, se dá em que a frase não me pede explicação alguma, é o próprio fim-e-começo (oroboro), assim como não importa o quanto eu modifique suas construções, sempre retorna na imagem de um palíndromo, ou da criança no balanço que escava o chão arenoso e fura o bucho do céu com os mesmos dedinhos. 

é aqui que me rebelo, que crio uma epopeia ridícula em cima de minha própria frase-limite, me entrelaço na síntese para expandi-la do subjetivo ao concreto da carne, dou a ela o nome de ferida, fratura, exposição de ossos, exijo que inflijam suas rusgas contra minha pele escamosa. cíclica-e-loucamente enfio-me em verborragias que não fazem quaisquer sentidos, não dizem nada a você, não é, meu amor? não dizem nada inteligível a mim também, são apenas repetições do próprio mecanismo culposo que me charfuda numa vergonha profunda, mas onde não me permite o afogamento. eu sempre volto, eu sempre levanto o rosto lamacento para encarar estes olhos, os doces olhos dos meus amados, piedosos, num contra-plongée tão bonito, tão fotografável, me fazem cama e me rogam silêncio.

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