26.2.15

Antílopes & Vísceras

"Sim, Simba, mas deixe-me explicar. Quando você morre seu corpo se torna grama e o antílope come ela. E assim, estamos todos ligados no grande ciclo da vida"
Parecia referir-se a outra, que não ela mesma, quando repetia vagarosamente essa frase sob o céu infinito. Como não tivesse sido este ímpeto pueril, redescoberto na vida adulta e burocrática, o propulsor de seu desejo; infiltrar-se pela savana da identidade. Que bonito soou na voz cantante de tantas pulsões, tanta distância. Agora, este tom, assemelhava-se a uma corda beirando o arrebentamento.
Era quase por instinto que buscava desterrar-se, mergulhando, com afinco, na descoberta de cada animal trespassado no tédio das horas. A travessia havia esgotado o próprio sentido, então, o modo era criar outros com urgência; rabiscando traços de encantamento e buscando informações aleatórias que pudesse rememorar até entregar-se a um sono, que era desmaio.
Para o alumbramento bastou um piscar em seus movimentos ágeis. An-tí-lo-pe, palavra que passeia na boca antes de escoar. Tinha a impressão de que o animal havia surgido apenas para preencher este nome, dar significado e corpo. Saltando entre qualidades, invejadas por outros bichanos de nomeação simples, se destacavam em imponência, elegância, rapidez e graça. Graças damos ao seu nome. Passara tardes tentando identificar algumas das noventa espécies que habitam a África, sonhava acordada com aquelas já extintas; antílope azul, matéria onírica de suas abstrações. Exaltava em silêncio as adaptações exigidas para sobrevivência; como era bonito saber que, além da aceleração, havia dança, saltos para todos os lados e o camuflar-se, ser o engano do predador.
Estes momentos faziam quase valer a pena o processo. Mas, a viagem, a tão inspiradora viagem, teimava em timbrar como zombaria. O antílope - numa versão sem quaisquer garbos - confundia-se com seu reflexo.
Foi numa noite muito quente, havia me distanciado para buscar o que já caiu em esquecimento, ainda assim, pude ver a camuflagem tomar de empréstimo o vestuário humano. Lembro do risonho sussurrar da hiena esgueirando a nuca exposta, de como permaneceu intacta. Mas, foi na altura dos olhos, mamãe, que o feitiço pousou como uma majestade caída, pata-pós-pata reinou sobre ela, o rei decrépito.

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