5.2.15

Na prateleira debaixo encontramos janaína

a pulsão da carta chega a mim em uma imagem com certa intermitência; eu sendo rebatida pelas ondas, abro os olhos e percebo que a água não invadiu os sulcos que formei na areia, o pavor (sempre ele, não é, querida?) afasta-a bruscamente antes que lamba meus pés. o plano volta a se repetir, de novo, e de novo, e de novo. desisto e vou passar um café mais forte do que deveria - sempre após às dezoito - remoendo os papéis que mais uma vez serão engavetados.

foi entre esse vai e não vai que eu sei correram meses desde aquela conversa incômoda, por não ser conversa mesmo, nem ser você e eu como supúnhamos naqueles dias tantos, aquecidos por uma verve emprestada de livros tão nossos, que hoje significam o que? a quem? fiquei me perguntando, depois de tudo, se no movimento do cigarro trocado não notávamos que algo estava para sucumbir, que seria meu ou teu o dorso curvado à dor. tive medo de perscrutar essa memória e uma epifania me estapear toda verdade, "a verdade", como fato e minha cegueira como culpa pela própria fratura. 

eu queria poder dizer seja bem-vinda novamente, a chave e os chinelos estão no mesmo lugar, só pra te sentir de novo ali entre as maçãs e a toalha rasgada - que eu ainda não troquei, pois é - mas a verdade é que eu queria antes querer, eu queria antes não ter esgotado teu nome, janaína, naquelas mensagens absurdas no meio da madrugada, queria não ter maldito cada letra, tragado sí-la-ba por sílaba como quem traga ópio, como quem desassocia a palavra do ser até que ela vire outra coisa qualquer, mais odiável.

por que te escrevo, então? pois outro dia dei-me conta que os olhos secaram, que esperar a delicadeza para por fim no que deixamos na conta do silêncio e da bondade do tempo não iria nos valer de nada. ou não valeria a mim, que bem verdade não me importo com o que lhe toca, não mais. eu vim para reivindicar minhas lágrimas, e não pense, janaína, que isso é só mais um de meus destemperamentos cafonas, não se iluda, não há fita cassete anexa com samba-canção para te convencer - e te reconquistar como noutros - dessa vez não tem soneto, meu amor. 

esta carta é um ato retórico, é dizer que  não basta a flexão dos músculos, a garganta seca, os olhos bambeando numa água que resiste à queda, é um arroubo egoísta de ator que faz uso das lembranças para a cena, é desterrar teu último virar de esquina e trazê-lo até meu choro. 

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