16.1.15

Notas sobre Elena

Para as minhas meninas


Me sinto absorvida, puxada para um invólucro desconhecido; reconheço a dor, a sinto em alguns dos meus amados, que em mim bate num ponto tão oposto ( pelo pânico, hipocondria, pulsão à vida não importa que só tenha restos).

Penso em obviedades inevitáveis; o quanto somos impelidos de modo geral à competição, a um perfeccionismo inalcançável que seria o motor do estímulo, o quanto é importante "mostrar-se forte"; adiciono a isso o que punge ainda mais as mulheres, a beleza que está relacionada a cor da pele, peso, tipo de cabelo, altura, detalhes que não precisam ser mencionados pois todos sabem qual é o requerido. 

Se como rebanho vamos sendo guiados, também como bicho doente são tratados os que de alguma forma não suportam mais quebrar os ossos para caber em moldes. O sistema não se importa com traços, trajetórias, singularidades; o ser não adaptável está fadado se não sobrar um sopro para si mesmo. Mas, pensar em si é egocentrismo, é futilidade, a menos que sirva para caber outra vez no molde rejeitado.

Essas palavras transpiram pelos meus dedos embora pesem uma tonelada, é feio falar da dor, não se quer olhar fundo em sua retina, trazê-la à superfície, ela é feita para as entranhas e não para o retrato, ela é feita para o divã - mesmo que este caia no egocentrismo antes mencionado.

É então, ao refletir sobre tantas exigências subjetivas e paradoxais, que me sinto reconfortada, como Petra deixando-se fundir à água para que esta leve o que impossibilita novas danças, me sinto par de tantos e te permeio Elena. Sei o quanto há de impossível no existir sem um pertencimento idealizado, sei o quanto há de absurdo em às vezes precisar picotar os ideais e virar a folha em branco, recriar o passo, entonar outro canto. É no entendimento que a lufada me toma, deixo-a me guiar.




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