27.1.15

Nota # 48 ou da sobreposição de pesadelos e sonhos

Eu queria falar dos processos, desossar as camadas uma a uma, mas não queria que fosse eu, meu o corpo exposto, as intimidades desnudas no palanque para objeto de estudo. Queria me distanciar a tal ponto que se tornasse terceira pessoa do singular, tão mais fácil para a escrita que entranhar em meus demônios. Mas, a verdade é que mesmo lá sei que sentiria meu odor, seria minha a pele ferida queimando, sempre e de qualquer maneira.

Como de costume, não lembro qual foi o fio que se desprendeu, também mais uma vez a geografia me obcecou, lugares onde nunca estive mas me são irritantemente familiares, como mapeasse cidades só para o imaginário e dispusesse nelas as minhas pessoas; duplos dos que estão no real cotidiano e ganham neste lugar-sonho / lugar-construção algumas características e atitudes que não condizem com a personalidade que conheço - ou julgo conhecer. O eu que vaga neste enredos madrugueiros sabe disso, mas não sabe identificar o que, é só uma sensação incômoda de deslocamento, na qual não busca aprofundar-se.

Meu primo se tornou pai, está em uma sala com muitos amigos comemorando,  eu observo toda movimentação sem participar, apenas uma taça com espumante na mão girando lentamente. De outro cômodo meus pais se aproximam apreensivos para dizer que o levarão ao hospital psiquiátrico, com a mesma indolência do liquido na taça meus olhos procuram algo a mais no sorriso abobalhado de meu primo, mas este só diz coisas aleatórias enquanto aperta as mãos de seus amigos repetidas vezes, ué, não é assim quando irrompe brusca uma felicidade? 

A sala era a mesma, mas não havia festa. Uma tia muito querida ainda estava viva e minha avó coloca suas mãos de súplica sobre minha perna para contar, com um pesar sólido, que, enquanto escolhiam as frutas mais frescas, uma pinta surgiu ante seus olhos no braço de minha tia, e ela cheirava a flores, daisy, o cheiro era tão doce que a mocinha da barraca não conteve um sorrir, sem entender de onde era a fonte. Foi nesse momento que a sobreposição de pesadelo-sonho começou a ganhar presença nítida, pois, embora a situação com meu primo causasse estranhamento, aqui pressionava meu pavor de morte, que caminha por todos meus eus. O peso das mãos de vovó, ainda sobre a perna que agora bambeava imperceptivelmente, começou a gerar uma inquietude, eu queria perscrutar cada poro, saber se de mim também exalava alguma doçura excessiva.

Não havia mais o medo, eramos outros na mesma sala, só que menor, assemelhava-se ao meu apartamento. Estavam pessoas muito próximas ao meu cotidiano real e afetos recentes, a quebra era o mestre dos tempos de teatro preparando café e bolo na cozinha, era o amigo de outra cidade abrindo a porta como se todo dia e indo ajudá-lo, era o outro não tão próximo, mas querido, que avistei ainda essa semana na calçada oposta, tudo sempre estranho e familiar.

No meio dessa verborragia urgente, de quem sabe que sonhos se perdem na rapidez dos processos mnêmicos, momentos anteriores surgem; um shopping que parece um castelo modernizado, a orientadora que voltou de buenos aires - quando no real era eu quem estava lá e ela em paris - questionando as pulsões para desenrolar o tcc, alguém que nunca imaginei em roupas esportivas voltando do treino de rugby, uma casa que era garagem e a dona aquela garota que tanto mexe com meu sentimento de inferioridade. Fragmentos que me são apenas passagem.

A sequência final, no apartamento semelhante ao meu, algo, que eu reconheço agora da competição culinária que passava pouco antes de dormir, era fervido na pressão sem tampa, outro amigo aparecia já puxando a panela e jogando parte do creme amarelado no fogão, "é porque as cebolas...as cebolas...". Como se espectadora uma câmera em travelling me mostra o creme jogado se multiplicando pela janela da sala, onde agora tinha um toldo para o lado de dentro, mas o que realmente me hipnotiza é uma barata-meio-aranha que surfava nisso tudo.

Gregor?

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