9.1.15

Confessionário | ATO VIII

Não é do medo subjetivo que falo, não é ele que me paralisa frente ao reflexo com a escova-de-dentes na mão, que desnaturaliza aquela feição cansada a encarar com um piscar lento esta que sou eu, que sou aquela também apesar do não reconhecimento. O que digo, numa retórica prosaica e verborrágica, está na concretude de certo horror fantasioso, uma massa amorfa que ganha corpo sobre o meu e depois num corte seco torna-se dicotomia de mim, para então me apontar o dedo recém formado, mas já tão antigo inquisidor.  É da encruzilhada sem canteiros, do grito seco que ao tentar fluir regurgita, é da canção sem fim, meu deus, que toca e toca e toca e toca e toca, na mesma sintonia da vitrola compulsiva de meus pensamentos, é do que posso tatear no ar denso do banheiro sem ser vapor do banho quente demais, é da porta fechada e o abismo certo ao girar a maçaneta.

Um comentário:

Geandra disse...

E se o dedo passar a reger uma orquestra de canções-movimentos ou apontar caminhos a serem descobertos, percorridos e não mais te acusar por experenciar a vida com tamanha intensidade? E se construirmos canteiros, trilhas, devires? E se os telefones tocarem, as pernas arriscarem passos e o abismo não for certo? E se estivermos aterradas num horror fantasioso que nos impede de gozar da complexidade dos percursos? Também a mim tudo isso habita. E com os braços desengonçados, as pernas desajeitadas, uma dança principiante, eu arrisco seguir. E te dou a mão.