16.12.14

Performance Cotidiana

O caso foi o seguinte: dum livro comprado em sebo, com dedicatória que não se esperava relida na contracapa, veio a mim Gilmar, nascido em 27 de Julho de 1952, filho de Seu Ubaldo e Dona Maria Guedes, São Paulo / Capital. Gilmar tem feição séria que não combina com sua pouca idade - confirmada pela data posteriormente descoberta - rosto quadrado e um cabelo que me lembra algum tio distante, e também o Fitipaldi. Emitiu a segunda via de seu Rg em setembro de 1973, talvez para começar em algum emprego, como manda mamãe e a boa etiqueta. De todos os dados, não imaginava Gil fosse entrar num livro que eu compraria 40 anos depois, também não teria como supor que um ano após a compra estaria distraída na plataforma do metrô,  escrevendo qualquer rascunho em meu caderno, e que dele saltaria num vôo leve a cópia amarelada de seu registro. Creio que lhe pareceria cômico, se houver algum tino ao humor minimalista cotidiano, que só tenha me dado conta do ocorrido quando um casal simpático buscava entre os rostos o seu, Gilmar;  teu rosto sizudo xerocado na mão de estranhos a buscar sua figura. Timidamente, confesso, fingi não ter sido de minhas páginas a tua fuga, observei apenas achando graça toda aquela movimentação.  Foi um senhor de rosto já cansado, que poderia ser tu, e um olhar amolecido que me denunciou:
- É dela, é dela o documento.

Um comentário:

Geandra disse...

Das poesias cotidianas. Que só podem ganhar encanto em olhos atentos aos preciosos encontros sutis, porque em meio a aceleração alucinante do tempo do capital é difícil ter o tempo da poesia, que pede uma outra respiração.