21.11.14

Nota # 46

Para quem passasse em frente ao portão esverdeado a cena teria proporção desmedida, braços longos agitando-se num drama intenso, o choro cobrindo o rosto, promessas de nunca mais e por que não para de me olhar assim, tudo uns dois tons acima do que mamãe ensinou sobre etiqueta em público - embora dos portões pra dentro, mesmo que vazados, fosse campo privado. Sabia de tudo isso, sabia também que os caras do bairro o chamariam de 'viadinho', conforme a cartilha homofóbica incrustada desde  à infância. Mas, nada disso importava, eram só mais alguns pensamentos embaralhados a outros que percorriam o caminho entre o cérebro e a língua; a garganta seca, as lágrimas feito navalha saltando dos olhos, como na música mais brega que vovó ouvia diariamente enquanto cortava salsinha. Esgotado e trêmulo nada mais tinha a ser dito, era o fim, em alguns dias essa situação seria recordada como sonho e logo nem  lembrança havia de ter dessa tarde interminável. Quanta perda de tempo, sabia, repetia, mas nada consolava.

Ela permanecia intacta. O vento morno beijava-lhe a face bronzeada de dezembro, nos lábios, o sorrisinho de canto que tantas vezes trouxe ternura aos dias insípidos, agora carrega um fio desfiado de cinismo e a única gota a cair não passa de um suor cansado.

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