3.10.14

Nota # 40

Daqueles dias que só se sabem amanhecidos pelo relógio que timbra ao pé da orelha enterrada no travesseiro de domingo, mas é segunda, amor, ele diz lentamente ainda com os olhos fechados, encorajando minha indolência; é segunda, é cinza, mas aqui dentro tudo é aconchego. 

Não adiantou o samba; o trólebus trôpego se encarrega do caminho que meus pés desfazem, a mão automaticamente empurra o portão automático, a praticidade do cotidiano na mesa intacta de sexta-feira. O pote de marmita no canto da mesa, a caneca que ainda guarda o resquício de uma marca de batom, é tudo consecutivo: liga, digita, relata, fim do mês, extrato bancário.

Conforme a semana se arrasta os prazeres puros vão ficando esquecidos, o alento só reaparece na noite de sexta, quando fico acordada até o chiar da madrugada sabendo que sábado poderei tardar. De qualquer modo, após o almoço encontro sempre um momento para sentar nos degraus à entrada do escritório com um livro e um copo de chá, as pernas largadas em desvario, sapecagem simbólica de quem precisa bater o cartão em dez minutos. 

A pele repousa sob o sol que tosta sem piedade, os olhos semi abertos alternam entre páginas lidas preguiçosamente e um fechar-se completo, três minutos, uma nuvem tampa o sol por alguns instantes, resmungo com quem se renova no calor, a pele aquecida novamente, dou uma olhadela de relance na tela do celular, pouco menos de um minuto...ainda dá tempo.

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