27.10.14

Correio # 02

Por escrito é mais fácil, este discurso é o mais repetido aos outros e a mim; por escrito flui, as palavras se arranjam e os sentidos se movem conforme os dedos sentem, como se a desorganização da cabeça fosse posta em alguma ordem para ter entendimento do interlocutor. Me convenço e escrevo, me engano de um dom que talvez não possua - é preciso tê-lo? - e te exponho esta carcaça, te imponho minhas feridas, meus devaneios, entrego numa bandeja o que sobrou d'alma e digo 'devora meus pedaços, e me cuspa algo inteiro'. Este drama cênico - jamais cínico - que faz parte de tudo que é real em mim, só se dá na escritura, na performance ato de lhe por quaisquer palavras; pois no encontro onde se dão as verborragias corporais tudo ganha uma ponderação, certa doçura de quem pode olhar nos olhos e sentir que ali há vida, cicatrização. Porém, meu bem, insistirei na escrita, que é preciso chafurdar na dor que não compreendo, alimentar este nosso vício enquanto escuto a encarnada desencarnação de juçara marçal, mesmo que o dia esteja ensolarado e as folhas dancem indolentemente uma segunda-feira leve , mesmo depois de três rosas e duas garrafas de cerveja, mesmo depois da troca, é preciso relembrar esta melancolia que nos dá as mãos, pelo menos até a próxima música.

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