2.10.14

Correio # 01

Se ao menos me fosse dado o direito a uma carta, tão somente uma, eu lhe descreveria cada nuance deste céu cinzento tendendo ao esbranquiçado. Lhe diria de como, vez em quando, as nuvens se espaçam dando lugar a um vestígio de amarelo e azul para que não esqueçamos o que há por trás da cortina caída. Talvez pudesse falar do avião que passa próximo - e tão distante - às antenas que nos conectam a todos pelo aparelho de televisão, e faria graça dessa ironia em uma frase boba, mas que você acharia inteligente por me bem querer. Dos pássaros, creio faria um verso, aleatório meio a um causo qualquer sobre como me disseram algumas palavras e eu absorvi com outro entendimento, destes relapsos tão meus que sei te fariam sorrir. 

Acabada a sequência da vastidão sobre minha cabeça, esmiuçaria o mar urbano, de como é clichê falar sobre isso todo dia, e de como justamente a repetição o faz imponente nos colocando como uma pecinha substituível da engrenagem; deixaria em evidência que pra você não há substituições possíveis. Acho que não me alongaria, como de costume, na sensação febril de ambivalência com a cidade, o horror ao qual somos acometidos frente à pulsão apaixonada que nos faz cair sempre nela, deixaria isto para um silêncio preguiçoso de cafezinho pós-almoço. 

Virada a página, que o final da anterior seria ocupada com um desenho qualquer, acho que seria boa hora para frivolidades; fofocas literárias, listas de filmes que só aumentam e nunca temos tempo e paciência para assistir, aquela música que tocou por um acaso quando mudei o link do vídeo, a fotografia que ficamos de tirar quando fossemos àquele parque num dia de sol, mas não muito quente para não passar mal.

Por fim, acho que caberia um poema, ou um trecho que é tão você daquele livro que estou lendo nos quarenta minutos que fico esperando o ônibus. Te pergunto como estão os dias, se testou aquele produto, que os bons ventos lhe façam carícias na nuca, te beijo pelo selo do correio, não demore a me escrever, até.


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