23.9.14

Nota # 38

Ela me olhou com um sorriso cúmplice por trás dos óculos com armação grande demais para seu rosto fino e diminuto. A moda tem dessas cruezas, enfia goela abaixo o fetiche sem levar em conta as singularidades de seus seguidores. Mas, essa não é a prosa, o caso é que eu não compreendi o segredo partilhado no ponto de ônibus, não decifrei o signo de seu sorrir encabulado, até que alguns segundos depois ela retirou uma sacola de dentro da bolsa, e desta um par de botas. Mediu o solado juntando ao seu, me sorriu novamente, agora em busca de aprovação, que não sei se pude exprimir pela feição cansada. De qualquer modo prosseguiu na ação, meio desengonçada se equilibrando em sua própria órbita; calçou um dos pés, o cano era longo e maleável, primeiro testou com ele curto próximo ao calcanhar, depois desdobrou até o meio da canela, parecia desconfiada se era de bom gosto. Não pude ter certeza, pois seu ônibus apontou na esquina e na pressa de tirar a bota, devolver à sacola, a sacola na bolsa, na bolsa o bilhete, nossa troca se perdeu. Espero que eu tenha sorrido.


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