11.9.14

Performance cotidiana # 02

ATO I  : Quinta-feira  | Quentura de sertão urbano | Algum momento da manhã.

Ela anda distraída com um livro entre as mãos, não levanta os pés o suficiente e por isso tropeça a todo momento pela calçada desregular. Os olhos inchados de quem mal acordou, escondidos trás o óculos-de-sol dourado, encontram dificuldade para significar as palavras, mas insistem. Tropeça mais uma vez.



ATO II: A luz do sol cega quem quer enxergar dois metros à frente. 

No alto da calçada há algo incomum para o bairro, a menina de pés rasteiros tropeça achando que é mais um pedaço disforme de chão, no impulso os olhos desviam-se das páginas para o todo. Um corpo é percebido ante seus sapatos. O algo é alguém.



ATO III: Florear em vermelho é como peito que sangra cansado.

As roupas são panos esgarçados com rasgos nos joelhos e mangas, pés descalços e ralados sustentam unhas longas demais para dedões, os olhos movimentam-se aceleradamente, como quem quer absorver o mundo em algumas piscadas. 

Não percebe a menina tropeçada, é apenas um elemento animado que não faz parte do que ocorre por dentro. Entre as pernas um maço de marca barata e um copo de pinga, nas mãos pétalas vermelhas arrancadas da trepadeira às suas costas; ela joga em festividade, como um mergulho em seu próprio peito, faz jorrar no caminho as veias em flor, se expõe enquanto planta, deixa a seiva tomar a sola dos pés alheios. Sintam minha existência.


ATO IV

O dia segue seu caminho um pouco deslocado.


Cair de pano.

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