6.8.14

Nota # 23

De tudo aquilo que ela dizia numa oratória perfeita, gesticulando hiperbolicamente frente ao espelho do quarto, nada seria realmente dito. Talvez se arriscasse a confessar em um conto breve, a personagem levaria o discurso, as questões e toda a culpa, pois nunca se está livre. Escolheria um nome distante o suficiente para que não lhe fosse associado, como se nele contivesse a ponta do novelo de toda identidade, seria uma máscara para a máscara. Gostou da ideia, assim, só as duas ou três pessoas, se muito, que a conhecem na essência saberiam que cada frase era parte de sua performance real. 

Mas, logo que a subjetividade começou ganhar corpo, um terror a assolou enquanto ainda permanecia ali, enrolada na toalha e refletida pela luz amarela demais. A possibilidade que nem aquela única pessoa, onde grande parte da certeza está depositada, soubesse ver-lhe nas entrelinhas confessionais prendeu-a pela garganta. Que aquelas noites, nas quais em sua nudez completa que ainda se envergonha de lembrar, sessões de auto-flagelo, rímel misturado às lágrimas fluindo o rosto esgotado, não fossem mais que um ato acompanhado com condescendência e pesar. Que a mudez não fosse por falta de palavras, mas por um clamor para fecharem as cortinas - encerrem o espetáculo, no hay banda.

...

Leva as mãos à boca prendendo um grito cênico.
Coloca o pijama, apaga a luz, começa a semana.

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