27.8.14

Conversas com a terapeuta I

Tente dizer sem sofrer, faz do teu drama riso simples, assim, força um pouco mais esse sorriso, deixa a mandíbula liberta da atm - pelo menos neste instante - vamos, pensamento positivo, vem, isso, com carícia, carinho, carinha de quem quer felicidade, nesta idade eu sei tudo parece imenso, um gigante feito a cidade que afunda teus sonhos de menina interiorana, aquele sol que ardia menos poluído, um amarelo menos cinza, não, para, ignora a nostalgia faceira, foca no relatório a ser entregue, digita, descreve, formata, revisa, sofra menos, compre mais, mas seu salário não é o suficiente, então, não compre nada, plante mais, ande de bicicleta, corra meia hora por dia, adquira serotonina for free mesmo que perca um pouco de seus pulmões, que seja na leveza de pássaro, pombas na praça da sé, transmissão de piolhos, não, pense na poética urbana, no acinzentado que te atraiu na adolescência, a vida cultural que você quase não aproveita, a turba, aquela que Baudelaire avisou ser preciso coragem para se infiltrar, mas não, não é de culhões que se trata, mas de apatia ou paixão, tente colocar alguns pontos nessa verborragia toda, respira, essa poltrona é melhor que o divã, não aperte tantos os dedos, tente ser você, que na tentativa já é outra coisa, o que será que ela está analisando, estou me fazendo clara, isto era uma pergunta, pare de olhar pela janela, tente dizer sem sofrer, ou toma esse chá, esse vento frio na cara, essa pilula e sofra bem.

Um comentário:

Geandra disse...

Mas se trata de apatia ou paixão. Tem um pensamento que conversa comigo quase o dia todo, mas poucas vezes eu falo sobre ele. É uma coisa de nenhum sentido realmente me convencer, então a vida vai acontecendo meio suspensa, sem comprometimento, porque ela não me convence. Na adolescência eu li que a morte é uma nadificação da vida, e isso se impregnou de tal forma no meu cérebro, grudou nos neurônios, invadiu as sinapses. Porque nada me convence ou me faz viver. Só viver. Por mais que eu escute ou leia coisas que fazem sentido no momento, elas não me convencem, por mais que eu queira que convençam. Eu só penso que o planeta vai deixa de existir, vai explodir e que tudo vai acabar e acho uma perda de tempo, uma palhaçada estarmos aqui admirando céus e borboletas. Eu dialogo comigo. "Mas vc não quer viver bem o seu tempo aqui? Não é importante que as pessoas vivam bem aqui, como vc quer viver bem aqui?". Sim. É. Nesse espirro que é a vida inteira pela frente. E a morte continua sendo a nadificação da vida. E a eternidade seria tão absurda quanto a finitude. Mas sim, acho que se trata de paixão ou apatia.