28.7.14

Nota # 18

Olha pela fechadura do avesso. Está ali, corredor a meia luz, duas ou três lampadas quebradas no caminho, tapetinhos de diversas cores em portas que nunca lhe deram oi, nem no elevador, a não ser a mocinha do cinco-cinco que alarga o sorriso a cada passo alheio - deve ser solitária, pensava, e logo escondia o rosto voltando a vergonha para a própria solidão. Olha pela fechadura sabendo que não enxergará nada, espera apenas um piscar de luz, um sinal que diga vá em frente, pode afundar o dedo neste botão sujo, você é bem-vinda, mesmo que não seja sua vida, mesmo que não esteja a sua espera. Mas nada acontece, não há ninguém olhando-a olhar, ninguém de meias velhas nas pontas-dos-dedos, nenhuma respiração contida, não há rejeição, não há malas e caixotes empilhados ao lado da porta, não dessa vez. É só passado de um prédio que não se frequenta mais - parece que foi há anos, as gargalhadas de pés cruzados no sofá, os primeiros desentendimentos banais, as rusgas, o fim... - é só  lembrança puxada de um fio que se desprendeu hoje cedo, enquanto comia pãozinho naquela padaria que foi preferida, que foi morada, e hoje só a mais próxima da entrevista de emprego.

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