28.7.14

Nota # 16



Do letreiro luminoso à janela eram só duas vias de distância e o canteiro no meio - por falta de nome melhor, faz-se deste brincadeira. É esquisito olhar de fora, mesmo estando dentro, e saber que logo não será mais, que a mão segurando o queixo cansado estará em outro apoio, com os olhos semi-cerrados embebidos por outra vista. Quanto cabe em oitocentos e cinquenta dias, quanto disso pôde chamar de lar? Parando para averiguar com distanciamento um erro coloca-se a vista, ter procurado em cada centímetro dos rodapés, que percorrem o amplo apartamento, algo que lhe remetesse à casa de seus pais; uma poeira, um cheiro específico, um modo de dispor os objetos, como se a grande revelação daquela casa sendo parte sua fosse essa identificação familiar. Mas, nada veio, tudo era novo e a cada dia menos seu - começando do zero. Começou a recriar pequenas manias (escapes de medos pueris); dormir com as portas fechadas - do quarto e do armário embutido -  acender as luzes para atravessar o corredor até o banheiro, não se olhar no espelho na escuridão. Medos estes que naquele outro de sacadinha já haviam quase sido desfeitos, era tudo tão parte dela que só na mudez da madrugada ganhavam estranhamento; no espreguiçar dos móveis e nas sombras formadas pela iluminação do abajur. Agora, olhando com nostalgia de quem se despede de antemão, percebe que não sendo lar foi ponte, preparando-a para um novo abrir-se, para o encontro que faltava - ele naquela noite de dezembro - para o entrelaçar dessas mãos que giram uma última vez a chave e rumam para o imponderável.

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