27.11.11

Os três porquinhos e a dignificação do homem

"arbeit macht frei"
Auschwitz

Faz algumas semanas assisti o trecho de um programa infantil produzido pela maior influência no estilo, Walt Disney, na rede de maior audiência nacional, Globo. Em pleno sábado saltava na tela um grupo de crianças, politicamente corretas, guiadas por uma atriz que personificava a Bela (bela e a fera).  Juntos faziam o almoço (chili com leite?) e precisavam que outros dois, que haviam ficado de fora, arrumassem a mesa para adiantar. Porém, o gato de pelúcia falante e um garotinho não queriam participar das tarefas, apenas sentar e comer. Bela, no intuito de mostrar a eles a necessidade de se ter espirito coletivo, contou a história dos três porquinhos. 

Para relembrar o conto, dentro do contexto que foi dito: três irmãos porquinhos (Cícero, Heitor e Homero ou Prático) saíram da casa da mãe e foram montar as suas próprias, porém Cícero e Heitor queriam cantar, dançar e se divertir, assim escolheram materiais (palha e madeira) que facilitassem o trabalho, fazendo com que sobrasse tempo para diversão. Já Homero, visando perfeição e maior segurança, passou longo tempo fazendo com grande esforço uma casa de tijolos. Construídos os novos lares, apareceu um lobo faminto querendo alimentar-se dos porquinhos. Com um leve sopro derrubou a casa de palha, obrigando Cícero a sair correndo para a casa de madeira do irmão em busca de abrigo. Esta em seguida também foi derrubada com um sopro. Os dois correram, então, para a casa de tijolos de Homero como último refúgio, que, em contrapartida aos ocorridos, não teve a casinha derrubada, mesmo com o lobo gastando todo ar dos pulmões. A moral: quem trabalha e se esforça tem por recompensa, a vida, basicamente.

Esta história ficou remoendo meus pensamentos e me fez refletir duas coisas. Dentro da máxima de que não se tem direito ao ócio, os indivíduos são educados desde pequenos ao trabalho contínuo, quando chegam em determinada idade os pais automaticamente iniciam seu mantra "vai trabalhar o quanto antes, não seja vagabundo", criando um grande desconforto e sentimento de inutilidade até que se concretize o primeiro emprego. Também fiquei refletindo sobre a contradição entre o que a Bela aparentemente quer mostrar e a fábula utilizada como exemplo; pois se o intuito era fazer crescer um espirito coletivo, pergunta-se, onde se vê isso na história? Pois acolher os irmãos para que estes não sejam devorados, é o mínimo básico de fraternidade/humanidade, mas não passa disso. A Pergunta exata é, por que os três porquinhos não construíram três boas casinhas em conjunto? Assim todos trabalhariam e aproveitariam o tempo de lazer em segurança. Mas não, nada de coletivismo, apenas o crescimento do sentimento de individualismo que tem muita coerência com a época que data os primeiros indícios da fábula (Séc. XVIII), época em que houve as chamadas revoluções burguesas (inglesa, independência dos EUA, francesa e industrial), que abriram a porta para a entrada do desenvolvimento do capitalismo.

Pois então, o que me parece que a princesinha da Disney quis vender, sutilmente, para seus pequenos “discípulos” foi mais uma vez a idéia capitalista de dignificação e liberdade que o trabalho "traz" ao homem; posto que o único porquinho que não teve o “orgulho próprio” reduzido a pó, sem precisar fugir, foi aquele que passou todo o tempo construindo, construindo e construindo sem espaço para diversão. Resta saber, se com tanta individualidade e trabalho estas crianças não tornar-se-ão seus próprio lobos.  Me inclino a acreditar que sim.

Um comentário:

sophiemagdalena disse...

é, vendo bem a história universal dos três porquinhos não passa duma representação da exploração do homem. de qualquer forma a ideia de trabalho como única forma de sobrevivência/aceitação social não é uma verdade absoluta, apenas algo criado para controlar e tornar as pessoas dependentes de algo. não dá para viver pelo simples prazer de viver. há aquela ideia de sacrifício para atingir a recompensa. mas um sacrifício que não acontece de forma voluntária ou espontânea, mas sim obrigatória e quase inconsciente. e penso que é isso que não está correcto.