18.2.11

Sobre um dia comum

Entre um gole e outro de café um mosquito transpôs a janela da cozinha. O desespero zumbia perscrutando o território, procurando meus ouvidos, um pouso em minha pele. Foi um instante, mas minha percepção se voltou completa para seu voo, o som da televisão tonara-se sussurro, as crianças da vizinha confundiam-se com o toc-toc do martelo do 302, que já não me endoidecia .

Eu, sujeito oculto em meu castelo-caixa, paralisada pelo encontro, os dedos firmes na caneca, os olhos fixos na luta árdua do mosquito entregue à brevidade de meu pequeno sadismo. Podia sentir o pulsar de um sorriso sobre seu ziguezaguear inquieto, na busca aleatória por uma fenda que o libertasse.

Bastava uma chinelada e toda angustia teria seu fim. Mas, me levantei, afastei a cortina, deixei as nuances quentes, de um entardecer prenunciado, invadirem os pratos e copos preguiçosamente empilhados no escorredor carcomido por ferrugem, que ele tome por si um caminho.

Este instante foi a paz recostada em minha tarde.

Um comentário:

Glauco Guimarães disse...

Mosquito sortudo!