11.12.17

olhos nas costas e um riso irônico no canto da boca

Para Luciane Ramos

venda na face
não adianta
mais

corpo
decolonizado

cria visão
em plexos-naus

re[ex]iste

fibrilando
escuro

movendo
plumas

inda quando
tanto

é imposto
a carregar

e diz
por cada

espaço

tateando
pés-em-chão

que
diáspora

não é só
banzo

é também
sobre retrilhar

que preto
não é só lamento

é festejo
do afeto

estado
bruto
mar

múcua
fruto
baobá

venda na face
não adianta
mais

é o que escapa
no riso do canto

é o que pisca
nos olhos das
costas

você pode até
discordar

que

venda na face
não adianta
mais

tudo bem

a gente pode
discordar

('a menos que a sua
discordância esteja
enraizada na minha
opressão, na negação
da minha humanidade
e no meu direito de existir.')

pode discordar
mas

venda na face
não adianta mais

esfarela.

se conselho fosse, eu dessintia.

repare bem
que de

migalha
em migalha

não se faz
o inteiro

ou se desfaz
uma fome

nem se apraz
os afetos

tome seu
tempo

repare,
meu bem,

separe

semente
do farelo

desate

fundamento
do castelo
(d'areia-pó)

dispare

por outra
direção

e tudo
bem

se o caso
ainda for
circular

repita
(y respira)

aquela curva
pode ser
uma fresta.

8.12.17

dual

respeitar a palavra

mesmo quando
a despeito
da urgência_

é não.

respeitar o silêncio

mesmo quando
a despeito
do ermo_

multidão.

pode respirar

a emoção necessária
recria-se

também
aos bocadinhos

como, às vezes,

uma carícia,
no esbarrão,
se realiza

um olhar
num suspiro,
não se desguia

a iminência do
silêncio

se dribla
sem
percebimento

a emoção necessária

às vezes
é um
detalhezinho

aquele perfume
que se achega
pelas costas

e anuncia
qual o nome
dessa pele.

6.12.17

castelo de areia

não há o que aguardar

nem maré
é coisa de companhar

quando se está no
asfalto

ou
cá do alto de qualquer
andar

que não há de naufragar

isso que não é água
é suor de parede

inda que se assemelhe
nas sedes

dum sol de dezembro

inda que o canteiro
tenha terra

não revire esse sal

que não é areia
disposta na margem

teus olhos tão confusos
de concreto, buzina
e marginal

miragem não é real
miragem não é fatal

igual castelo construído
a balde enfante

que na primeira
intensidade ondular

volta a ser poeira

e só.