17.11.17

a iminência do silêncio
faz dizer
e diz.

[verborragia ou dos bestiários ou de por a palavra pra girar em si]

para Ian San


é que eu não sei mais rezar palavra.

s'inda soubesse
era canção miúda isso daqui,

é que até pra poema a preguiça
resolveu ser rei.

logo em mim:

esforçada em decifrar a questã
que ronda-ronda
sem dar a ver.

essa preguiça é por direito
ou traquejo de esconder
desejo de ?

simulo um movimento
e na ansiedade escrevo é nada

viro esquina,
dou de cara c'o jardim

acho graça os namoradinhos
na brincadeira de

mal
bem
querer

arrancando uma a uma
as pétalas de si.

acho também besta a graça da rima
e invento um outro mover

é sobre a travessia notívaga
e não sobre desflorir

eu queria era versejar a animália,
uma sentença contundente do encontro
com a língua noturna dos pombos

falar do cheiro do medo do rato
e que pensei: esse temor é mesmo
teu?

de que esgueiramos juntos pela sarjeta

e nem mesmo matei ou me surpreendi
da cascuda no caminho

eu queria era retomar o inventário
mas que fosse bestiário do comum

a marginália literal e figurada

descer a rua barra funda
falando de tudo que é bicho

sem saber, afinal, se a grande
revelação é sobre mim.

18.10.17

movimento nº 379

não me engane a vastidão silente:
são caudais os sentimentos marítimos.

qual ponta d'um iceberg
anuncia gigantesca fundura

também calmaria oceânica
é testemunha antecipada
de caos, ondulações, maremotos

não me engane
ou
afugente o porvir

deixa-me cá
atenta à sinuosidade

não serei tampouco
a que deseja
foz

temendo o encontro
d'águas

inventário de sensações miúdas

um cansaço se inventa na escápula,

certas ansiedades só visíveis
se são teus os dedos contraditórios
- firmes e trêmulos -

tentando formar linhas novas nas
palmas,

uma tristeza se aloca no retorno
que parece nunca será feito

nesta guerra que não é tua
refestelando-se em cãibras
nas partes traseiras das pernas,

um silêncio se revela no contrário
do jogo de dominó na esquina de casa,

uma tarde quente se desprende sem ter
sido despida,

um medo se acalma na centelha
do pavio quase em seu fim,

um poema às vezes não é mais que
tentar reter o pensamento fugidio,

mas o que pensei nem  foi isso também.

12.10.17

II - Boreal

Eu te escrevi de como aquela manhã formou ondulações festivas sobre as minhas linhas da vida suadas, de tanto tempo expostas ao sol visitante e breve, não foi para puxar assunto sobre o nada (morno, amarelo, goticular). Foi para retomar um assunto, para que fosse essa também a fotografia a permanecer depois da próxima e última frase. Não deixei de assinar o bilhete por descaso ou covardia, mas por intimidade. Ato final de uma.

Daqui, tantas milhas agora, há muito a ser cultivado com essas mesmas linhas afundadas em terra escura, sei que você entenderia e de imediato outras cartografias seriam lavradas. Aconteceu que não quis mais suportar o esvaziamento dentre um plano e outro. Vê, suportar? Vê, não querer? Quando se alcança esse lado de lá é hora que o aqui seja um basta. Alguém tinha que.

Rodopiamos noturnas asfaltos e camas que jamais serei capaz de desatar da memória, nem desejo.  Mas não só. Fizemos da partilha um espelho contínuo que logo frustrava ao se mostrar a outra e não reflexo. Cobramos uma fusão ao universo, rituais secretos de velas e óleos, entre o banho de uma e o café corriqueiro d'outra. Tentamos não lançar esse débito entre nós, até que em algum momento escapou do controle, não é? A estrutura romântica nos picou ardida feito abelha enroscada na madeira, ainda assim, seguimos, semanas no que já não se equilibrava na corda dos dias, meses remendando as contas tortas do calendário, fingindo não ver por "amor".

Carrego a consequência da decisão pontual: arcar com o direcionamento turvo sem a bússola de teus lábios. Mas, querida, quantas riquezas se desdobram ao saltar d'uma tautologia, não saberei te descrever, no entanto desejo, funda como somos, que tu abandone também o carrossel e se arrisque brincante noutros territórios de si.

De cá, deixo amanhã esse arado para um terceiro ônibus, sinto o retorno dum tempo novo como sempre tivesse sido meu. Esquadrinho essa utopia libertária de transpor e que os afetos me atravessem como eu essas estradas. 

Haverá outro tempo para outro porto.