12.10.17

II - Boreal

Eu te escrevi de como aquela manhã formou ondulações festivas sobre as minhas linhas da vida suadas, de tanto tempo expostas ao sol visitante e breve, não foi para puxar assunto sobre o nada (morno, amarelo, goticular). Foi para retomar um assunto, para que fosse essa também a fotografia a permanecer depois da próxima e última frase. Não deixei de assinar o bilhete por descaso ou covardia, mas por intimidade. Ato final de uma.

Daqui, tantas milhas agora, há muito a ser cultivado com essas mesmas linhas afundadas em terra escura, sei que você entenderia e de imediato outras cartografias seriam lavradas. Aconteceu que não quis mais suportar o esvaziamento dentre um plano e outro. Vê, suportar? Vê, não querer? Quando se alcança esse lado de lá é hora que o aqui seja um basta. Alguém tinha que.

Rodopiamos noturnas asfaltos e camas que jamais serei capaz de desatar da memória, nem desejo.  Mas não só. Fizemos da partilha um espelho contínuo que logo frustrava ao se mostrar a outra e não reflexo. Cobramos uma fusão ao universo, rituais secretos de velas e óleos, entre o banho de uma e o café corriqueiro d'outra. Tentamos não lançar esse débito entre nós, até que em algum momento escapou do controle, não é? A estrutura romântica nos picou ardida feito abelha enroscada na madeira, ainda assim, seguimos, semanas no que já não se equilibrava na corda dos dias, meses remendando as contas tortas do calendário, fingindo não ver por "amor".

Carrego a consequência da decisão pontual: arcar com o direcionamento turvo sem a bússola de teus lábios. Mas, querida, quantas riquezas se desdobram ao saltar d'uma tautologia, não saberei te descrever, no entanto desejo, funda como somos, que tu abandone também o carrossel e se arrisque brincante noutros territórios de si.

De cá, deixo amanhã esse arado para um terceiro ônibus, sinto o retorno dum tempo novo como sempre tivesse sido meu. Esquadrinho essa utopia libertária de transpor e que os afetos me atravessem como eu essas estradas. 

Haverá outro tempo para outro porto. 

4.10.17

o piano sou eu

singelas
sinestesias:

ter nos dedos
o impossuível

sonoro que punge
e acalanta

como lembrança
inda por ser rasurada

(como la noche
es casi invento
de un vino)

como passeio
por idiomas tácteis
já extintos

como a escrita
se deseja
voz

mass
se perecebe
papelito

como o bilhete
se abre vazio

na surpresa
d'um sopro

sentir o aroma
do toque certeiro
contra as teclas

e a meu favor

como instrumento
fosse um jogo de
dados

tudo pudesse ser
a sorte de
qualquer sentido

desde que
emoldurássemos
canções

com tua miríade
de caudas.

29.9.17

a palavra pede licença

Para Mariana Fujisawa

a palavra acena um silente agô

desdobra
séculos
canta coragem
lenta &
firme
no tempo
que é.
a palavra
irmana y emana
ondulações
que a
estreitez das janelas
busca reter
sem notar
a esquiva
lá vai ela
lá vai ela
de boca
em ouvidos
de dedos
em retinas
espraiando
labirintos
por vezes
insolúveis.

27.9.17

para ser lama é preciso ser lume

"e um desatino me persegue a onde quer que eu for"
renato pessoa | esmorecimento

onde é a ponta da dor,
meu bem,

ali,
território que o dedo 
não sabe cartografar

mas hasteia 
bandeira 
forasteira

encurtando

onde o nós

busca ser
laço frouxo

desatamento
sem mais
desatinar

feridas 
ao 
léu

ali mesmo,

pés
terra 
descalços

farão da lama
lume e rito

curas de acorde
inventado

em solidão
que nem se
sabia partilha

como sabiá
não sabe o alcance
de seu canto

26.9.17

funduras jupiterianas

tem melancolia
de

mar
& cerrado

coabitando
um pertinho
tão dentro

e um distante
tão fora

que nem sagitário
meiando céu

sabe qualé
a estrada

pr'essa
fundura