16.4.18

cavalos

tem sempre um verso que quer nascer,
mas demora que casi
(g)estaciona

e eu fico aqui, quieta,
olhar pousado em cavalos
bailando crinas volumosas

(como os oitis que fazem sombra
na restinga)

revoa os entornos deste amor
convocando melodias
em meu plexo

mas num me tiram da
a(ssas)sina
melancolia da palavra

num rasguinho
casi miúdo demais prasivê

tem sempre um silêncio moroso
espreguiçando-se
na esquina 'qui de casa

me acompanha mesmo que
de mim nem a fuça se aviste
na janela

e eu fico aqui, quieta,
contando os meses do poema

sonhando, ainda, com cavalos
aos pés da serra

bailando feito árvores
breves despedidas

ressequindo lábios
que mal deixaram a sede,

ceder.


9.4.18

música é memória

para andré

música é memória
quando tua mão pousa
leve

e sola

reinventando partituras
escuras no declive
escapular

que inicia as costas

música é memória
táctil

sinestesia de perfume
faiscando breu

faz o mel casi triste
dos teus olhos
marinheiros

ficar cravado na lembrança
do depois da meia noite

numa lua casi inteira

que

música é memória
minguante e crescente

no passar de tantos dias
no correr das horas

desarranja o tempo
no intangível permanente
da canção.




3.4.18

quando dandalunda for de chegar


um poema numa garrafa
para um futuro sonhado
da filha d'oxum co filho d'odé

quando dandalunda for de chegar

antes há de ressoar
num timbre único
o deslocamento das marés

os pescadores içarão mistérios
trançarão miçangas
y devolverão às águas
um ebó em nome teu

quando dandalunda for de chegar

nossa poeira já vai estar assentada
sob a fricção da borracha co'a estrada

diremos não mais lembrar como se
desinventam horários,
seguindo o rumo dos desejos
mais que a bússola dos destinos

quando dandalunda for de chegar

moveremos por duzentos dias

o alimento no despertar da fome,
sonhos na via láctea esparramada,
o sutil abrir de olhos na certeza
morna das manhãs

y deixaremos cravada a utopia
inda que tenha agendada firme
sua valia

quando dandalunda for de chegar

só saberemos pisar o festejo do coco,
e a terra molhada será d'uma chuva
que nossos olhos não pararão de
molhar

que quando dandalunda for de chegar

só pedirá licença aos mais velhos
ao dobrar-se no acalanto de seus
braços

compartindo essa funda temperatura

que faz do ontem, sempre,
y da hora, agora,

e o amor esse estar
onde é seu lugar.

quando dandalunda for de chegar

estaremos lá
estaremos lá



28.3.18

toda vez tem que curar

toda vez tem que curar
respirar
aguardar

que da próxima
é chegada a hora
d'acalantar

toda vez tem que curar
y de novo
ressecar
y de novo
escoar

que alívio
é o que faz novamente curar

que ali, logo menos,

outra vez tem quê.

sem opção pra deixar
maré inundar

é coisa de recomeçar

sem outro infinitivo
pra terminar

ar
ar
ar

entre dormitar
y soluçar

ofegante
noturna
trespassar

ontens
feito tótens

sustentados
nisto que tenta
não naufragar

apesar
das estátuas
y seus símbolos

apesar desse
eterno

retornar

na mão do capataz

y dizer que orgulho
é pretejar

y libertar dos grilhões
de desejar o que não
se é

y saber que se é o
melhor porque se é
e se está

então lagrimar,
oca y profunda

silenciosa y
demasiada
mente

solitária

[y tudo bem não
estar tudo bem
y estar]

toda vez tem que curar

gengibre,
mel,
limão,

mandingar
palavras ao fogo

y cansar,
cansar,
cansar.....................

cabeça no chão
é pedido de calmar

até novo
alvorar

y no lume d'outono
reacreditar

que próxima é
a vez em que

projeçã de
acumulada dor

não fará mais
trovejar

24.3.18

um canto para francisco

ogunhê!

a mirada do erê
imensa afluência
de rio são francisco

percorre as águas
antes do sal

faz rebuliço na
encantaria d'uma
foz miúda

quem saberá das
fundezas desses
zoin marítmos?

enxerga num antes
que nós pelejamos
retornar

cachoeiras d'ouro
se realinham em
águas festivas

pra
ogun menino
banhar seu dorso

y com tato-pele
destrançar um pranto
em plantio extenso

que é preciso sempre
rememorar

que não só guerreia
o combatente

fio de lâmina também
é tecnologia de terra

pra mode talhar caminho
onde renasce a flor.