22.6.17

algo sobre ter o corpo-tornado-barbatana:

as
bichinha
tudo
exausta
no tornado
do corpo

desinventam
um tal de
ballet diaspórico
marítimo 

[que parece quaisquer
sonoridades d'um 
axé melódico]

re
plexo

cardio-
respiro-
pulmo_

mar?

pode ser assim?

as guelras
se entranhando

em corpo
- nau

bem eu
que sempre
desejei ser
caleidoscópio

nomeei-me

poraquê
d' águas
doces

- sabia que derruba cavalo
com mais de quinhentos volts? -

corpochoque é,
afinal, 

condição
de contato


[ essa dubiedade apresentada naquela linha que avistamos enquanto da partilha da canga, se aqui fosse praia - i num é - quando não sabiamos mais se lá nos fundos do cenário era má o cé. assim também não sei se maremoto ou furacã, se garça ou tubarã, se rima ou romã, só sei que é. ]

20.6.17

tem um gosto amargo lá dentro [ou forma de alinhar a vivência política a afetiva]

"a mulher pensa no que poderia ter acontecido
a mulher pensa que a culpa foi dela
a mulher pensa em tudo isso
a mulher pensa emocionalmente"
[angélica freitas | a mulher pensa]


eu poderia, mas não vou trazer estatística aqui no corpo-raivoso do texto, vou deixar a palavra correr conforme a nervura e o cansaço de repisar o exercício da reflexão, infinda.

vou então é chutar que nas relações amorosas que conheço, que oiço, que leio e que vivenciei, sendo o outro um homem ( partindo dessa localização de fala e experiência) quase que 100% quando não é atravessada toda por machismos explícitos (tentando, ainda, me ater ao fato de que se desvincilhar das estruturas arraigadas é um exercício diário), finda agarrada há diversos outros traços cruéis dele.

quando não vem na base da lâmina, da bala e outras formas de morte do corpo (que, por sinal, tendemos a acreditar que, como a maioria das desgraças, não vai acontecer pertinho-da-gente, ou conosco, é sempre um algo distante que não tem a ver com qualquer característica desses caras que escolhemos estar)

vem na INFINIDADE (embora sempre repetidas) de violências e mortes subjetivas, psicológicas, emocionais: ameaças de abandono, de tristeza infinita, de suicídio, obsessões com a vida d'outra, com as amizades d'outra, com a liberdade d'outra, crises de vítima das mais diversas formas, fazer algo absurdo com a mulher e inverter o papel, diminuir a gravidade do próprio erro, invadir o espaço da outra pessoa (geográfico e subjetivo), não respeitar as solicitações de distância, de silêncio, fingir que não entendeu o que a pessoa disse com absolutamente todas as letras, tirar a mulher de louca se fazendo de louco, xingá-la de todos os nomes humilhantes, dizer, e inventar, de traços de sua personalidade e de seu corpo, fazê-la ter nojo de si, para depois dizer que na verdade tudo tudo isso era por amor, num momento de exasperação.

isso porque estamos falando de quando a mulher, por qualquer motivo universal, decide que não quer mais estar na relação, porque quando eles decidem, decidido está, não é? qualquer modo de expressar nosso sofrimento é porque somos profundas DEMAIS, sofridas DEMAIS.

é, definitivamente e reconhecidamente, do nível do patético e do desconforto geral, ter de deslocar minutos, tempos, ansiedades do meu dia para ser Mais uma mulher, Mais uma vez, a se posicionar sobre isso, uma voz irritante e funda fica repetindo lááá n'um lugar árido: ah, mas eles nem sempre são só isso, são compostos de uma miríade de qualidades e defeitos; ah, mas eles também também têm suas trajetórias, suas dores; ah, mas, assim você coloca uma dicotomia real, você é ruim, você é exagerada, pô, eles também dizem e discutem e leem e e e sobre raça, gênero, classe. ah, ah ,ah!!!!!

e eu me forço a dizer pro sussurro: atá!

eu quase, quaaaase não sei que chave da boca do cramunhão se gira que nesses momentos nossos discurso/ação política se desloca um bocado da nossa vivência, de repente, DE NOVO, estamos passando o pano imundo para o outro e na própria cara, quié pra cegar de vez.


mas, não cola, reparou? não adianta, a visão tá cemporcento...a cegueira já não veeeem camaradas!

o "Quase não sei" é só QUASE mesmo, sabemos muitíssimo bem que é a chave histórica do medo, da culpa, da solidão (e se eu for fazer o recorte de raça e classe, mermão....), é a chave da alteridade, da justiça que ainda teima em ir além de si e compreender o outro que, vamodizê, está girando ao redor dos próprios desejos e dores e doenças, onde você - novamente, porque aqui nada, nadinha, é inédito -  é um objeto desumanizado (já que nos reconhecer enquanto um ser, seria reconhecer nossos desejos, necessidades, individualidades, liberdades), uma carcaça pronta para ser ocupada com a máscara que o outro quer: _________________________________________

não expomos o outro por uma outra luta, atrelada a essa, de construir e zelar por nossos afetos, não ser irresponsáveis e superficiais. ao passo que o camaradinha com punhos no volante não hesita em tratorar nossa saúde emocional (e física), acabando nós, mulheres, como corpos dependurados em praça pública.

não tem QUALQUER novidade em nada disso, é mais do mesmo e do mesmo e do mesmo e do mesmo e do mesmo e do mesmo. mas, isso é sobre vocês!

sobre nós é: CHEGA! ainda que doa, ainda que reabra uma casca antiga, NÃO TOLERAREMOS, NÃO CALAREMOS.


que é como bem disse uma grande amiga: a maneira como posso lidar com isso hoje não precisa ser uma repetição.


& não andamos só.





sobre outros patuás

1. fiz foi um todo com miçangas recolhidas de segredos da noite

absurdos,
abstratos,

e um deserto sempre em nós
[nômades trançando a manada indômita: essa imagem]

morada fluida
destino sem cais

vastidão
ilusão

parece rima
mas é modo de dizer q'
o sabor açúcar
é engodo do sal.

______


2. [percebe?]

d'outro lado de tudo

sorri
so
noro

tom de
alaúde:

é dela os mistérios &
as miçangas.

_____


3 .feitiçaria de rapariga
liberta

flechando
dedo-lavanda

em meu
okan

//

19.6.17

eu te faço um patuá

Para Tatiana Nascimento


padê de amanhã
n'um patuá 
cerzido

com xaxarás &
eruexins

abrir caminhos 
no que se revela riacho
submerso em meio

_fio

de antena entrecor-
tando vôo-pássaro

lado-
[a]lado

nuvem nem tão
passageira

as
sim
to

mamos
ruas

como quem toma
o chá

que no popular
é calmaria

mas num-é

como a memória
e a dança de
bêbados insones

como o acorde
e o sal finalmente
espargido

no que foi semente
que agora
relicário

12.6.17

fundura

esse teu jeito de dizer
bonito
que não quer me conhecer
de facto.

partilhar das belezas
e fomes tantas

é saboroso

mas não enche
a barriga dos
afetos

não tem quaisquer
valores profundos
se
quando me expresso
em pranto

te causo alvoroço
de pôr distância
no nós

silencia até 
que passe...

até me convocar
novamente à
doçura

desde que 
superfície

meu bem,
meu bem,

(sua estupidez é outra)

espuma das ondas
é mesmo bonito de
se ver

mas só conhece
Atlântida quem
arrisca afogar.