11.1.18

[.]

para Rochelle.

sempre haverá

outro tempo
para outro porto

outro momento
para outro descanso

outra réstia
para outro encanto

sempre haverá

uma quebra
escondida

no aço firme
da linha

sempre haverá

outro olhar
para o mesmo
quadro

outro enquadro
para um olhar
ensimesmado

sempre haverá

um depois
desse dia

e do outro
também

e no intermédio
de cada

uma palavra
que nem sempre
se diz

mas sempre
está.


26.12.17

girassóis e outros sonhos comuns

uma mandinga que
não tire de mim

os vestígios
daquela manhã

restos de sonho
risos, girassol
numa sala que
conheço bem

o poeta do pantanal
num café de van gogh
pincelando ardente
o sol da primeira manhã

um pouquinho antes
do primeiro galo cantar

um pouquinho antes
do primeiro cachorro
latir

um pouquinho antes
de minha mãe despertar

uma mandinga que não
desfaça o encanto

que sopre esse pranto
do depois que há de vir

um patuá com teus olhos
ao fundo do rio

piscando conforme o
farfalhar das cortinas

21.12.17

processo e repetição

isso que
questiona

é isto uma mulher?

não diz que
"é perda de tempo
odiar um espelho"

não desemborca
o rosto de reflexos
ilusórios

contém em
sua dúvida

a afirmação
d'um valor

em seu
contrário

isso que
questiona

nem questã
é

afia
a navalha
em

processo d'
repetiçã

ressoa
revoa y
retorna

quinem
bumerangue
de

repete
insã

desvario
sem variar
de caminho

incide
insiste
[e fere]

isso que
questiona

repete
intã

em
palavras
vãs

até que
esvazia

num gosto
de espuma

que
reconheço

e sou,
e sou
e sou!

como
desfeito

d'um
quebranto
óbvio

11.12.17

olhos nas costas e um riso irônico no canto da boca

Para Luciane Ramos

venda na face
não adianta
mais

corpo
decolonizado

cria visão
em plexos-naus

re[ex]iste

fibrilando
escuro

movendo
plumas

inda quando
tanto

é imposto
a carregar

e diz
por cada

espaço

tateando
pés-em-chão

que
diáspora

não é só
banzo

é também
sobre retrilhar

que preto
não é só lamento

é festejo
do afeto

estado
bruto
mar

múcua
fruto
baobá

venda na face
não adianta
mais

é o que escapa
no riso do canto

é o que pisca
nos olhos das
costas

você pode até
discordar

que

venda na face
não adianta
mais

tudo bem

a gente pode
discordar

('a menos que a sua
discordância esteja
enraizada na minha
opressão, na negação
da minha humanidade
e no meu direito de existir.')

pode discordar
mas

venda na face
não adianta mais

esfarela.

se conselho fosse, eu dessintia.

repare bem
que de

migalha
em migalha

não se faz
o inteiro

ou se desfaz
uma fome

nem se apraz
os afetos

tome seu
tempo

repare,
meu bem,

separe

semente
do farelo

desate

fundamento
do castelo
(d'areia-pó)

dispare

por outra
direção

e tudo
bem

se o caso
ainda for
circular

repita
(y respira)

aquela curva
pode ser
uma fresta.